“Nenhuma pessoa negra nesse país deve ter seus sonhos limitados.” A frase da ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros de Oliveira, resumiu o espírito da inauguração da Casa da Igualdade Racial em Itabira, nesta terça-feira (30). A cidade se torna a primeira de Minas Gerais e a quinta do país a receber o equipamento público, que integra a política nacional criada pelo Governo Federal para ampliar o acesso da população negra a serviços públicos e fortalecer o combate ao racismo.
A solenidade reuniu autoridades federais, estaduais e municipais, entre elas o prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage; a embaixadora dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em Minas Gerais e primeira-dama, Raquell Guimarães; a deputada federal Dandara Tonantzin; o secretário da Secretaria de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Senapir), Clédisson Júnior; as deputadas estaduais Macaé Evaristo, Andréia de Jesus e Bella Gonçalves; o presidente da Câmara Municipal, Carlos Henrique Filho; a secretária municipal de Governo, Dulce Citi; e a diretora de Promoção de Igualdade Racial, Lia Andrade.
A cerimônia abriu com uma homenagem do movimento Fala Quilombo. Foi um minuto de toque de tambores em memória de Dona Rosinha e da centenária Dona Tita, ambas do Quilombo Morro Santo Antônio, que morreram em junho deste ano e foram lembradas ao longo de todo o evento como referências da luta pela igualdade racial na cidade.
O prefeito Marco Antônio Lage contou que foi por meio da Casa da Cidadania, criada há cerca de três anos, que a gestão municipal conheceu as duas mulheres. Segundo ele, o centenário de Dona Tita motivou um projeto de lei e o financiamento de um filme de média-metragem sobre sua história, enquanto o livro de Dona Rosinha, descoberta pela escritora Conceição Evaristo durante uma visita ao quilombo, foi o mais vendido na última edição do Festival Literário Internacional da cidade, o FLITabira.
Mais do que um prédio público, a Casa da Igualdade Racial funciona como espaço de acolhimento, escuta e orientação, com apoio jurídico e psicossocial, ações educativas e culturais, e articulação de políticas voltadas ao enfrentamento do racismo. A ministra Rachel Barros comparou a proposta à lógica do Sistema Único de Saúde (SUS). “Assim como cada bairro tem uma Unidade Básica de Saúde, a Casa funciona como uma ‘Unidade Básica de Promoção da Igualdade Racial’, conectando Ministério, estados e municípios em um trabalho articulado”. Em seu discurso, ela também destacou o simbolismo da palavra “casa”, associada a acolhimento, segurança e pertencimento, e afirmou que o espaço nasce para que a população negra sinta que aquele lugar também é dela. Lembrou ainda que o Governo Lula retirou o país do Mapa da Fome por duas vezes e defendeu que crescimento econômico só tem sentido se vier acompanhado de políticas de combate ao racismo em áreas como saúde e educação.
Já o prefeito Marco Antônio, citou números da gestão municipal para justificar a necessidade do novo equipamento. “Itabira tinha um déficit de 1.300 vagas em creches, escolas sem banheiro ou telhado funcionando por anos e uma secretaria de esporte fechada”. Cenário que, segundo ele, afetava principalmente famílias negras e pobres. Hoje, afirmou, “seis mil crianças praticam esporte e atividades culturais no contraturno escolar”.
Marco Antônio mencionou também o programa Cidade Quilombola, voltado à estruturação urbana, transporte, educação e saúde nas comunidades quilombolas do Morro Santo Antônio e do Capoeirão, onde serão inaugurados dois centros de memória.
Durante a cerimônia, foi assinado o Acordo de Adesão nº 20/2026 entre a União, por meio do Ministério da Igualdade Racial e da Secretaria-Geral da Presidência da República, e a Prefeitura de Itabira, formalizando a entrada do município no Plano Juventude Negra Viva (PJNV). O programa tem como objetivo enfrentar e reduzir a violência letal e as demais vulnerabilidades sociais que atingem a juventude negra em decorrência do racismo. O documento será publicado em extrato no Diário Oficial da União.
A programação incluiu ainda uma apresentação do Grupo Folclórico Tumbaitá, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, e terminou com o descerramento da placa oficial de inauguração pela ministra e pelo prefeito.


