Com muita perfeição uma oligarquia pariu o jogo das leis imperfeitas

DO BAÚ DO VELADIMIR ROMANO DA CRUZ

Com o salão de festas instalado na histórica mas dividida ilha de Chipre (a Turquia ocupa 40% desde 1974, com uma Constituição depois de 1985), ensaio para a morte das economias, tem evidenciado mais um capítulo da crise ao nível da maior epidemia financeira do século; assim, certamente, depois desta fortíssima tempestade, alguma bonança terá de chegar à sociedade e, esta, então, deverá ter aprendido alguma lição de verdade e mentira.

O descarado e obscuro jogo de interesses (após a independência da Inglaterra, 1960), espalhou nesta iniciativa globalizada de crescimento e progresso à custa da miséria em mais de metade da humanidade, desorganizando a vida de milhões, acabou finalmente explodindo no rosto daqueles que todos os dias, antes do café da manhã, vão deitando olhos algozes pela panorâmica das telas electrônicas, procurando informação financeira do mercado internacional; leis implacáveis, conduzidas na força gulosa de regras especulativas.

Caíram esgotadas economias da primeira linha, chegando a vez dos oásis endinheirados e, aqui, Chipre, abriu a porta; vejamos o seguinte… sinais já haviam sido dados de países como a Suíça, até as mais recentes declarações dos responsáveis das pequenas ilhas do Estado Caimão, denunciando listas de clientes marginais, habituais e outros tais, sinônimo dessa guerra surda.

Entre 1960-70, em Aknotiri, em outro sintoma de guerra, a CIA comandou base militar apontada para a União Soviética; com isso, muita leviandade financeira foi admitida.

A baralhada se instalou logo nos primeiros dias sobre a classe dirigente da pequena ilha e dos marialvas comodamente instalados na tribuna de Bruxelas, mostrando a verdadeira dimensão do problema, mal disfarçada na sua genérica situação, abrangente como vai sendo, quase ilimitada neste acumular de suspeitas, desequilíbrios, destruição e quebras na confiança humana. A vez do Chipre, tinha de chegar, falta saber agora para quando Malta, Andorra, São Marino…? Outros abnegados oásis vivendo também sua agonia dedicada ao silêncio.

Muito fácil ficou na boca dos governantes e de alguma Imprensa, aplicando dicas qualificadas de saber sobre  depósitos bancários “dos russos” (uma minoria); tudo muito fácil e rápido: uma descarada mentira, quando desde a independência do Chipre; passou, isso sim, a depósito bancário de fugas de capitais e fiscais, entre lavagens, dos oligarcas gregos: dos armadores Niarkos, Onassis, Papadopoulos. Não esquecendo a entrada dos empresários alemães, ingleses, holandeses, italianos, árabes fugidos do Líbano, sírios, franceses, americanos e até ditadores africanos.

A divida da banca cipriota atinge 20bilhões de euros (metade do seu PIB), enquanto as cifras dos montantes depositados vão superiores a mais de 65bilhões em contas onde cada milhão, uma vez depositado, o cliente pode candidatar-se à nacionalidade cipriota.

O Chipre, com apenas 9 mil klm2, com uma população de 1 milhão de habitantes, possui o mais elevado índice de bancos europeus por metro quadrado em apenas 3 cidades: Nicósia, Lanarca e Limassol, que alguns países muito maiores não tem.

Esta mordomia aceite pacificamente pela elite europeia, enquanto pôde, alimentando foi a quantidade de vícios do sistema econômico, livrando da perseguição os grandes marginais, traficantes, entre outros ritmos da alta finança internacional.

O mal criou raízes sem preocupações, convencidos que no aperto das responsabilidades, o pato seria pago pelas reservas econômicas do povo, quando seus rendimentos são o escudo sempre visível salvadora da finança dos criminosos e capitalistas. Este sintoma de perfeição parida, foi escolhendo estabelecer toda uma maré de imperfeições assistidas pela lei, ela também marginal.

Deste modo, à vacilação dos comandantes da proa política juntou-se a loucura de um sistema corrompido, mostrando em cada momento seu malabarismo desesperado, querendo resistir contra a corrente realista do mal que vai causando; uma envenenada conduta, caminhando a conflitos mais sérios. Já de nada servirá aos super-abastados irem colocando suas velas no altar-mor do santinho protetor, certos que neste horizonte mais próximo nada vamos conseguindo descobrir de messiânico.

Sendo paraíso de lazer a 3 milhões de turistas, alguns criando residência permanente, o paradoxo depressivo não será só do impacto sobre a população cipriota, mas o processo contagiante social provocando falências sucessivas na vida daqueles que, trabalhando uma vida, não conseguem agora viver nesse descanso, perdendo  independência financeira, falidas pelo sistema no qual depositaram confiança e certezas. Cada cidadão só pode sair do país com 3 mil euros.

O paralelo oculto do “bom negócio”, nunca vivendo a descoberto, manifestou suas imperfeições de tanta perfeição, que os povos levaram tempo para compreender sobre a grosseira manipulação de todo um sistema no pleno da sua derrocada sem perder o aspeto mais claro da perversidade elitista e dominante.

Veladimir Romano da Cruz é jornalista, escritor e historiador caboverdiano.