Terminadas as apurações dos votos, Lula alcança 48,43% dos votos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro, 4,16% de Simone Tebet, 2,82% dos nulos e 1,59% em branco. Ciro Gomes foi a má surpresa, afinal, era previsto alcançar uns 7% dos votos, veio caindo com o apelo do voto útil e conseguiu só 3,04%.
A apuração tensa e os resultados surpreenderam e desagradaram, praticamente, todos brasileiros, que passaram a questionar as pesquisas eleitorais, já no início dos resultados das apurações.
Marketing político é ciência, não é embate de militância e nem achismo. Diante de tantas reclamações, vamos analisar um pouco mais a fundo as pesquisas?
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AS PESQUISAS ELEITORAIS
É prematuro e superficial criticar uma pesquisa eleitoral apenas diante dos confrontos dos números. As pesquisas quantitativas registram um momento, é como um termômetro que pode medir febre num dado momento e normal em outro, mesmo o paciente seguindo com uma virose.
É preciso ver o que está por trás dos números. Para inferir os próximos resultados, é preciso analisar a curva de tendência, a margem de erro e a estratificação, por exemplo, se contou com amostras de todo o país, se havia tendências de mudanças de votos e se considerou votos válidos ou não.
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IPEC
O Ipec, ex-Ibope, registrou no sábado (1/10) 47% para Lula, 34% para Bolsonaro, 5% para Tebet e 5% para Ciro, desconsiderando os votos brancos e nulos, com margem de erro de 2% para mais ou para menos.
Pois bem, vamos encontrar matematicamente os percentuais apurados nas urnas, descontando os brancos e nulos num total de 4,41%, para cruzar com os números do Ipec. Foram 123.678.768 votos contabilizados pelo TSE ontem. Deduzindo dos brancos e nulos, tivemos 118.226.172, que passam a ser considerados 100% dos votos (os úteis). Por regra de três, temos:
LULA
118.226.172 (votos totais úteis apurados) → 100%
57.257.473 (votos apurados para Lula) → X%
X = 48,43% dos votos úteis apurados a favor do Lula
BOLSONARO
118.226.172 (votos totais úteis apurados) → 100%
51.071.106 (votos apurados para Bolsonaro) → X%
X = 43,2% dos votos úteis apurados a favor do Bolsonaro
Com a margem de erro de 2% para mais ou para menos, o Ipec cravou os votos do Lula com impressionante precisão, tendo apresentado o número de 47% a um dia da eleição, contra os 48,4% reais apurados.
Com relação aos números do Bolsonaro, que o Ipec registrou 34%, com margem de erro poderia chegar a 36%. Na mesma ocasião, o Ipec registrou os 5% do Ciro, que já vinha passando por forte queda nas últimas semanas, com o apelo do voto útil. Para algum dos candidatos da polarização, esses votos iriam. Como Ciro fechou com 3% dos votos apurados, portanto 2% a menos, tendo o Ciro e os demais candidatos batido forte no Lula no debate da Globo, é possível inferir que boa parte do eleitorado do Ciro migrou para o Bolsonaro.
Daí, o Bolsonaro pode ter levado vantagem e os números do presidente poderiam chegar aos 38%, com margem de erro, votos úteis e migrados do Ciro. Analisando ainda a curva de crescimento registrada na pesquisa, onde apontou que o Bolsonaro vinha ganhando terreno, por exemplo 3 pontos a mais na semana anterior e que o Ipec tinha registrado 8% de brancos e nulos e 3% de indecisos na última medição, havia, sim, uns 5% de votos que migrariam para algum candidato da polarização.
Portanto, considerando ainda acertos dos demais candidatos, o Ipec foi bem certeiro sim. Analisar pesquisas eleitorais é como ler uma imagem de um diagnóstico médico. Só profissionais conseguem ler o que está por trás dos números. Com isso, óbvio, as campanhas podem destacar os pontos que lhes interessam, omitir os que não interessam e induzir o eleitor, que se surpreende depois e passa a chorar leite derramado.
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DATAFOLHA
O Datafolha registrou 48% para Lula, 34% para Bolsonaro, 6% para Tebet e 5% para Ciro, no sábado passado. Valores bem próximos do Ipec, tendo acertado mais com relação aos votos do Lula. O Datafolha não percebeu bem foi a curva de crescimento do Bolsonaro, que acabou se revelando como tendência nas apurações.
Outro detalhe é que a pesquisa da Datafolha tinha detectado 11% de intenção de mudança de voto. Dado muito significativo.
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FSB/BTG
Outro instituto bem certeiro foi o FSB/BTG. Na estimulada, a uma semana das eleições, votos válidos com margem de erro de 2%, registrou:
Lula (PT): 48%
Jair Bolsonaro (PL): 37% (com margem de erro: 39)
Ciro Gomes (PDT): 8%
Simone Tebet (MDB): 5%
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MDA
A MDA foi fera, hein? Ela tinha registrado, no dia anterior das eleições, 48,3% para Lula, 39,7% para Bolsonaro, 4,9% para Ciro e 4,7% para Tebet, votos válidos.
De forma análoga, na margem de erro de 2,2%, Bolsonaro poderia alcançar os 41,9% dos votos. De semelhante análise, mais uma vez os votos perdidos do Ciro e da Tebet migraram com ligeira maior força a favor do Bolsonaro. Uau! Parabéns para a MDA, que foi muito precisa!
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BRASMARKET
Bem, a pesquisa que mais errou, de longe e se revelou muito tendenciosa e sem confiança foi a Brasmarket. Nela, apresentava 44,3% para Bolsonaro (bem próximo e dentro da margem de erro, diante dos resultados apurados), mas alegava 27,6% apenas para o Lula, com 20,2% de brancos, nulos e indecisos. 2,45% de margem de erro, votos úteis.
Acredito que era nessa pesquisa que os militantes bolsonaristas mais se apegaram e, claro, mais se frustraram.
A pesquisa da Brasmarket foi contratada pela Asserj (Associação dos Supermercados do Estado do Rio de Janeiro), que pertence ao colégio eleitoral do presidente e que representa, de certa forma, a elite econômica do país, onde o presidente trafega com maior vantagem.
